Cientista especializado em botânica explica o impacto das novas regras da UE em matéria de edição genética

O contexto político subjacente à decisão, o que esta significa para os consumidores e as oportunidades e riscos que apresenta.

28.07.2026

A União Europeia adotou, em junho de 2026, nova legislação relativa às plantas obtidas através de determinadas novas técnicas genómicas. O novo quadro legal entrará em vigor após um período de transição de dois anos. Este distingue duas categorias. As plantas da Categoria 1 (NGT-1) apresentam um número e um tipo limitados de alterações genéticas que também poderiam ocorrer naturalmente ou através de melhoramento convencional. Com a nova legislação, estas serão, em grande parte, regulamentadas à semelhança das plantas obtidas por melhoramento convencional. As plantas da Categoria 2, com modificações mais extensas ou complexas, continuarão sujeitas às regras existentes relativas aos Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Nesta entrevista, o Prof. Dr. Jürgen Kleine-Vehn, professor de Fisiologia Molecular Vegetal, analisa os novos regulamentos da UE.

CIBSS/Universität Freiburg

Jürgen Kleine-Vehn, professor de Fisiologia Molecular Vegetal.

Que tipo de plantas são afetadas pela nova decisão da UE?

Kleine-Vehn: Uma única e minúscula alteração no genoma de uma planta já pode determinar se esta lida melhor com a seca, resiste a doenças ou floresce mais cedo do que as suas congéneres. Os cientistas chamam a estas alterações «mutações».

Na natureza, essas mutações ocorrem constantemente, por exemplo, em resultado da luz solar. Os melhoristas de plantas têm vindo a utilizar mutações há muito tempo na agricultura convencional e biológica. Na verdade, muitas das culturas que cultivamos hoje foram criadas através da indução de mutações com radiação ou produtos químicos, e ninguém chamaria a essas plantas de OGM.

A diferença com a edição do genoma não reside no tipo de alteração que é feita, mas sim na forma como esta é introduzida. Em vez de utilizar produtos químicos ou radiação para criar muitas alterações aleatórias e, posteriormente, procurar uma que seja útil, as ferramentas de edição do genoma, como o CRISPR, podem introduzir uma pequena alteração num local específico do genoma. Nesta mutagénese direcionada, as ferramentas moleculares são utilizadas apenas temporariamente e não permanecem na planta final. A nova regulamentação aplica-se a estes tipos de plantas geneticamente modificadas.

Essas plantas geneticamente modificadas são seguras para consumo?

Kleine-Vehn: As alterações introduzidas pela edição do genoma são molecularmente idênticas às que surgiram naturalmente ou através do melhoramento convencional. O método utilizado para as criar não constitui, por si só, uma nova categoria de risco biológico. Esta é a base científica para tratar as plantas NGT-1 verificadas como comparáveis às plantas obtidas por melhoramento convencional. Com base nisto, a UE considera agora as plantas NGT-1 seguras e decidiu que estas deixarão de ser regulamentadas da mesma forma que os organismos geneticamente modificados convencionais — ou, em resumo, os OGM. As plantas que contêm ADN estranho continuam a ser rigorosamente regulamentadas ao abrigo da legislação existente em matéria de OGM.

Quando as pessoas pensam em engenharia genética nas plantas, muitas associam-na aos debates sobre a Monsanto e à dependência dos agricultores em relação às grandes empresas do agronegócio. Quão válidas são essas preocupações?

Estas preocupações são válidas e devem ser levadas a sério. Mas não têm, na verdade, origem na edição do genoma. Fazem parte de questões muito mais amplas sobre a forma como os nossos sistemas agrícolas estão organizados, quem controla as variedades vegetais e quem beneficia da inovação.

A edição do genoma poderia ajudar a investigação pública, programas de melhoramento genético de menor dimensão e sistemas agrícolas diversificados a desenvolver culturas mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, as patentes e a concentração do mercado podem reforçar os desequilíbrios existentes. Por outras palavras, não é a tecnologia em si que determina a forma como é utilizada — é o quadro político, jurídico e económico que a rodeia. O principal desafio consiste em garantir que as patentes e a concentração do mercado não limitem o acesso à tecnologia a um pequeno número de grandes empresas.

Existem vantagens concretas decorrentes da nova decisão da UE?

Kleine-Vehn: Acima de tudo, pode ajudar-nos a realizar o melhoramento genético de forma mais precisa e mais rápida. A agricultura atual está sob pressão de várias formas. Os agricultores têm de garantir uma produção fiável em condições cada vez mais difíceis, reduzindo simultaneamente o seu impacto negativo na biodiversidade. Além disso, devem fazer tudo isto sem expandir as terras agrícolas em detrimento da natureza. As novas técnicas de melhoramento genético permitem efetuar pequenas alterações direcionadas que ajudam as culturas a lidar melhor com o stress, por exemplo, utilizando a água de forma mais eficiente, tolerando melhor o calor ou sendo menos suscetíveis a doenças. O desenvolvimento de uma nova variedade de cultura através do melhoramento convencional demora entre 25 e 30 anos. A edição do genoma não elimina a necessidade de testes e ensaios de campo, mas pode encurtar consideravelmente algumas etapas do processo de melhoramento genético.

Vê algum potencial para inovações com base na nova decisão da UE?

Kleine-Vehn: Sim, sem dúvida. Uma ideia empolgante que os cientistas estão a explorar é recorrer a parentes «selvagens» das culturas modernas. Muitas destas plantas selvagens são, por natureza, muito resistentes ao calor, à seca ou a solos pobres — muitas vezes, de forma muito superior às culturas modernas. O problema é que são difíceis de cultivar ou de consumir. O seu rendimento pode ser baixo, as sementes caem com demasiada facilidade, não florescem todas ao mesmo tempo ou podem produzir substâncias amargas. Através da edição do genoma, os criadores podem fazer apenas algumas pequenas alterações para resolver estas questões práticas e, ao mesmo tempo, manter a sua robustez. Esta abordagem é frequentemente designada por domesticação de novo (nova) e poderá abrir diversas novas opções para a agricultura — especialmente à medida que as condições climáticas se tornam cada vez mais extremas.

Quais foram as principais questões políticas no debate sobre as plantas editadas genómicamente?

Kleine-Vehn: Quando surgiram novas técnicas de edição do genoma, como o CRISPR, no final da década de 2010, a legislação da UE em vigor não as contemplava especificamente. Em 2018, o Tribunal de Justiça da UE decidiu que os organismos produzidos por tais técnicas deveriam, em geral, ser regulamentados como OGM ao abrigo da Diretiva OGM de 2001. Isto implicava regulamentos abrangentes em matéria de avaliação de segurança, autorização, monitorização e rotulagem.

Isto deu origem a um debate sobre se uma planta deveria ser tratada como um OGM simplesmente pelo facto de ter sido utilizada a edição do genoma, mesmo que a mesma pequena alteração genética na planta resultante pudesse também ocorrer naturalmente ou através de melhoramento convencional. As negociações da tríloga conduziram, finalmente, a um quadro diferenciado, no qual as plantas NGT-1 verificadas são tratadas como plantas convencionais e as plantas NGT-2, com modificações mais significativas, continuam sujeitas às regras aplicáveis aos OGM.

Como posso tomar uma decisão informada a favor ou contra as plantas NGT-1 ao comprar produtos hortícolas?

Kleine-Vehn: Embora os produtos alimentares cultivados a partir de plantas NGT-1 não ostentem um rótulo de OGM ou NGT, as sementes serão rotuladas e as variedades criadas com NGT-1 serão listadas em bases de dados públicas. Isto permite aos agricultores escolher se pretendem utilizar variedades NGT-1 e comunicar a sua decisão de forma transparente. Em conformidade com as regras da UE relativas à agricultura biológica, a utilização de plantas NGT-1 na produção de «alimentos biológicos» é proibida.

No Cluster de Excelência CIBSS, estuda os processos de sinalização molecular nas plantas. A votação da UE irá influenciar a sua investigação básica e a sua aplicação?

No CIBSS, o nosso principal interesse é a investigação fundamental sobre temas de relevância social. Abordamos a forma como organismos como as plantas percebem o seu ambiente, como diferentes sinais são combinados e como esta informação é transformada em decisões que moldam o crescimento e o desenvolvimento. A decisão da UE não altera, na verdade, o que fazemos no laboratório no dia-a-dia.

A longo prazo, no entanto, esta política da UE pode fazer uma diferença real. Pode influenciar a rapidez com que descobertas científicas fundamentais, como as nossas, são traduzidas em aplicações que beneficiam a sociedade. Embora a nossa investigação possa não ser orientada por aplicações imediatas, o nosso objetivo é gerar conhecimento e, por vezes, protótipos que possam ser utilizados para apoiar uma agricultura mais sustentável. A compreensão dos mecanismos biológicos básicos é a base para soluções sustentáveis, independentemente das ferramentas específicas de melhoramento genético que venham a ser utilizadas.

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